
Só há um momento, em toda a conversa, em que o olhar estremece. "Quando nasceu a minha primeira neta fui ao hospital e a minha nora disse: 'Pegue lá na sua neta.' Desatei logo a chorar. Tinha muito medo que não me deixassem mexer nos meus netos, tratá-los. Tenho paixão por crianças, sabe?"
Ana teve sorte, acha. Com os filhos, bem entendido. Quando há cinco anos e quatro meses - ela sabe de cor - descobriu o diagnóstico, os dois rapazes, na casa dos trinta anos, "ficaram muito revoltados". Disseram-lhe para deixar o pai. "Ele não é digno de que estejas com ele, repetiam. O mais novo até quis deixar de lhe falar, mas eu não deixei. É o pai dele, deve-lhe a vida. Ainda hoje tem grande relutância em falar com ele, mas consegui que não cortassem relações." E ela ficou. "Ele é diabético, depende de mim para tudo, para orientação, para medicação. O mal está feito. Se o deixo é matá-lo. Lentamente mas mato-o. Tenho muita fé, pedi a Deus coragem e luz suficiente para aguentar este pesadelo. Também pedi para o meu marido. Ele é católico como eu."
Não sabe de quando data a infecção. Só sabe que quando há cinco anos mais os tais quatro meses estava de férias no Alentejo come-çou com febres altas que não passavam. Foi ao hospital, fizeram-lhe análises e mandaram-na tomar aspirina e consultar o médico de família. Resolveu antes "ir para a terra", a ver se a mudança de ares funcionava. "Encontrei lá um doutor amigo e ele examinou-me, apalpou-me debaixo dos braços e nas virilhas e escreveu uma carta à minha médica de família. Disse-me: 'Espero que não seja o que eu estou a pensar'." Era. "A médica disse que era preciso fazer análises a tudo e perguntou-me se não me importava de fazer as do HIV também. E acusou. Depois disse-me que ficou um fim-de-semana inteiro às voltas sem saber como me dizer. Quando finalmente me deu a notícia fiquei em choque. Até que ela disse: 'Está a olhar para mim e não diz nada?' Aí desatei num pranto."
A seguir, mandou chamar o marido. "Só lhe disse: estragaste a tua vida e a da tua mulher. E ele: 'O que é que eu fiz? É impossível." O rosto de Ana segura-se na dureza para não derrapar. "Vê bem com quem andaste", respondi-lhe. Sabe que ele nunca me pediu perdão? Nunca directamente. Até negou, nos primeiros dias. Depois já não dizia que sim nem que não. Não aceita conversação sobre isso." Suspira. O seu grande anseio, confessa, é que o marido fosse franco com ela." Mas não consegue olhar para mim cara a cara. Às vezes apetece-me falar, desabafar, e não consigo, não com ele."
Raiva? "Antes era uma pessoa muito submissa. Depois fiquei muito revoltada. Ainda hoje tomo comprimidos para dormir. Sou forte, mas há dias em que me vou abaixo. E há uma coisa que não consigo mais, é ter relações sexuais com ele. Ainda consegui um ano mas depois acabou. Disse-lhe que para sofrer, não. Faz da tua vida o que quiseres, desse ponto de vista." Se fumasse, Ana escolheria este momento para puxar o fumo, devagar. Em vez disso, olha, olha sempre, a direito. "Ele foi infiel muitas vezes e eu sabia. Temos uma intuição, não é? Naqueles dias em que ele nem me deixava dar-lhe um beijo, rejeitava-me, percebia logo que se passava alguma coisa. E no início, depois de ter o meu primeiro filho, ele saiu de casa durante um mês. Tive um esgotamento nervoso, fiquei toda partida por dentro. Uma vizinha viu-me naquele estado e disse-me: 'Quando ele voltar, nunca lhe pergunte por onde ele andou. Dói muito, mas tem de ser'."
Tinha de ser? "Nunca pensei que fosse possível fazê-lo mudar, confrontá-lo. Entreguei-me menina a ele, com 19 anos. Nunca tive outro homem. Nem sei se queria ter tido, o amor por ele é muito grande." Ainda? "Ainda." E ele, ama-a? "A mim não me diz, nunca. Mas diz a outras pessoas que é a coisa que mais adora." Suspira, faz silêncio. "Às vezes acho que não, que está comigo porque precisa de mim."
by Fernanda Câncio in DN
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