Friday, April 21, 2006

sobrevivência

Quando enfiamos o braço num saco cheio de tralha à procura de alguma coisa, fechamos inconscientemente os olhos: a perda de um dos sentidos aguça os restantes e ao abdicarmos da visão favorecemo-nos o tacto. Talvez por isso, quando nos apaixonamos e ficamos cegos e surdos à lógica e a tudo o que até então aprendemos, se nos aguça o entendimento na ponta dos dedos, que extravasa sob a forma de um desejo furão a pedir medidas de pele, desenroladas a mãos de retroseiro. A partir daí, comanda-nos o instinto, que se substitui à razão; estranhamente, porém, nem costuma fazer um mau trabalho, o dito, porque instinto não é só comer e dormir e foder a desoras, é também sobrevivência; e esta implica por vezes quietude, retracção e recato: as mãos fechadas em punho e escondidas atrás das costas, a língua dormente e colada ao céu da boca, o corpo imóvel à espera que passe, num quase rigor mortis. Para que tudo continue como antes, para que doa o menos possível. Aquando da passagem do Amor, há que ser-se ligeiramente pós-darwiniano: a preservação é absolutamente essencial à sobrevivência da espécie, que não se basta na selecção natural.

in um amor atrevido

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